HSM

O possível fim da era GM

Desde 1° de junho a empresa norte-americana General Motors está sob proteção do capítulo 11 da lei de falências dos EUA, o que equivale à recuperação judicial no Brasil. Este procedimento legal é destinado a evitar falência, proporcionando ao empresário devedor a possibilidade de apresentar formas para quitação do débito aos seus credores. É a chamada concordata.

A montadora de Detroit terá entre sessenta e noventa dias para elaborar e apresentar uma proposta de renegociação de suas dívidas. Apesar da significativa injeção de capital do governo americano, a concordata provavelmente irá resultar na reestruturação de operações, fechamento de fábricas, centros de distribuição e corte de funcionários.

Torna-se difícil acreditar que uma corporação como a GM tenha ignorado por tanto tempo os sinais enviados pelo meio ambiente, consumidores e concorrentes. A tendência apontava para veículos menos poluentes, econômicos, menores, movidos a fontes alternativas e renováveis de energia, reduzindo a dependência do petróleo e a emissão de poluentes na atmosfera.

Voltemos então no tempo. O ano é 1874. O invento: a máquina de escrever, um produto hoje obsoleto que criou, revolucionou e modificou a maneira das pessoas trabalharem, escreverem e se comunicarem. O primeiro equipamento, sugestivamente chamado de Remington n° 1 foi considerado um fracasso comercial devido ao alto preço para a época e baixo desempenho.

Duas décadas se passaram até o lançamento da inovadora “Máquina de Escrever Underwood n°1”, na virada do século. Sucesso de vendas, teclado silencioso e macio, tabulação, design moderno e pasmem: o novo modelo permitia que a escrita estivesse sempre à vista, o que não era possível até então, facilitando a correção imediata de erros e a vida de quase oitocentas mil datilógrafas existentes no mercado de trabalho americano na época.

Quase cinquenta anos foram necessários até que um novo entrante, a International Business Machines (IBM), apostasse na máquina elétrica, tecnologia dominante nos mercados comerciais e profissionais até meados dos anos 80, quando surgiram os processadores de texto. Daí pra frente já conhecemos o enredo, as tecnologias e os competidores.

Retornemos ao ano de 2009. Uma montadora até então desconhecida, de um país irrelevante na indústria automobilística lança um veículo inovador, moderno, barato, econômico, pequeno, perfeito para o momento provocado pela crise global. A empresa é Tata Motors, do empresário indiano Ratan Tata. O veículo é o Nano, com custo aproximado de dois mil e quinhentos dólares e fila de espera de mais de duzentas mil pessoas.

É inevitável e irresistível fazer um paralelo entre as histórias. Se a Tata será a nova IBM e a GM e Chrysler terão o mesmo destino da Remington e Underwood ainda é cedo para dizer. Todavia, podemos afirmar que a indústria automobilística nunca mais será a mesma, assim como o desenrolar da evolução das máquinas de escrever - ao qual vivemos até os dias de hoje. 

 

 

Por Marcos Morita (mestre em administração de empresas e professor das disciplinas de planejamento estratégico e gestão de serviços na Universidade Presbiteriana Mackenzie. E-mail: marcos.morita@interair.com.br)
HSM Online
17/06/2009

Sem votos

Comentários

Lendo seu artigo, lembrei-me de um velho artigo escrito por Theodore Levitt em 1959 - "Marketing Myopia", parece que foi escrito ontem.
Marcos, Ótimo texto, parabens. Parece óbvio, mas estar atento as necessidades do mercado e suas demandas é fator diretamente impactante no sucesso das organizações.
O destino das duas montadoras não sabemos ao certo, mas que o legado se elas deixarem de existir, causará um enorme vazio na história do século XX.
A GM além destes motivos citados , não inovou aliado ao que o consumidor "moderno" deseja ( menor consumo de combustivel , alternativas de combustivel , pequeno e ágil)Outro ponto importante é custos ( pois preço não é a GM , nem outra empresa que define e sim o mercado) , ela sempre colocou como fator secundário , sem importância e isso é fatal para qualquer empresa em qualquer ramo de negócios.
MORREU UMA PARA APARECER OUTRAS. ESSA CRISE É MESMO ÓTIMA PARA TIRAR OS GRANDES MONOPÓLIOS DA JOGADA. ISSO LAPIDA O MERCADO. HOJE, AS O MERCADO REDUZIU A DURABILIDADE DE PRODUTOS, E O PREÇO DE PEÇAS ESTÁ CARO. DAÍ VOCÊ COMPRA OUTRO PRODUTO QUE NÃO PRESTA E ASSIM VAI. A SUSTENTABILIDADE ESTÁ POUCO DESENVOLVIDA AINDA. O LIXO DE PRODUTOS SEM RECUPERAÇÃO,(CARROS DESCARTÁVEIS) É ALTO. EIS A OPORTUNIDADE PARA A RECUPERAÇÃO DE PEÇAS COMO OS FERROS VELHOS LEGAIS É CLARO. ISSO FORÇA A QUEDA NO PREÇO DE PEÇAS E CONSEQUENTEMENTE MELHORA O PREÇO DO AUTOMÓVEL, DESBANCANDO OS GRANDES MÍOPES DO MARKETING, E TRAZER JUNTO AO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL UM AMBIENTE DE MERCADO MAIS LIMPO E SADIO.
É claro, o que a GM apresentou foi a visão miope de seus administradores, que não perceberam como o mercado e as inovações tecnologias modificam em uma velocidade cada vez maior. Não se pode desprezar que as classe mais pobres estão cada vez maiores e estão conseguindo aumentar o seu padrão e que também desejam ter produtos que as classes maiores possuem. Aqui mesmo no Brasil podemos perceber que os produtos da GM comparado com outros , possuem poucos atrativos. para o consumidor .
Tenho curiosidade e até gostaria de saber quem eram os "GURUS" do marketing e mesmo os "CEO" , que a dez anos atras projetaram o desenvolvimento destas empresas e falavam dos investimentos e aquisições pelo mundo afora e davam palestras ensinando como se fazia uma empresa de sucesso e uma pergunta mais; Só elas e as outras? pode-se afirmar que todas as outras empresas automobilisticas pelo mundo afora estão saudaveis e que nenhum acionista irá se suicidar?
Formidavel seu texto,Mas atualmente estamos vivendo tempos difíceis em que tudo esta se tornando precario e caro,por isso o consumidor hoje pença mas em escolher um produto que va te trazer segurança e economia principalmente em se tratar de meio hambiente.

Comentar

O conteúdo deste campo é privado e não será exibido ao público.

Opine!