06/07/2009 - Magia da Gestão - Carlos Alberto Júlio
Até Descartes já sabia!

Recentemente, um amigo esteve a ponto de esmurrar o computador. Havia dias que sua navegação na Internet lembrava os tempos da linha discada.  Resolveu ligar para a empresa fornecedora do serviço de banda larga.

Começou seu tormento. Demorou até que alguém pudesse atendê-lo. Paciente, ele explicou o que ocorria. A moça não lhe deu resposta imediata. Pediu “um minutinho”. Depois de um tempo, retornou e lhe pediu uma série de dados “para confirmação”. Solicitou mais “um minutinho”. Aí, perguntou-lhe, mais uma vez, o que estava ocorrendo. Ele respondeu:

- Mas eu já disse o que ocorreu.

- São os procedimentos, senhor – decretou a atendente, automaticamente.

O jeito foi repetir toda a história. A atendente quis mais “um minutinho”. Depois, informou que algumas áreas da cidade estavam experimentando alguma lentidão. Ele insistiu, afirmando que o problema perdurava havia quase uma semana. Ela pediu mais “um minutinho”...

Eu sei. Até você já está ficando irritado. Acertei? Pois esse é o modelo de atendimento vigente em muitas grandes empresas. Inúmeras checagens e poucas respostas.

No caso citado, a funcionária acabou por aconselhar meu amigo a chamar um técnico para checar a fiação doméstica. Frustrado, ele já estava para desligar, quando a funcionária recitou uma longa proposta de contratação –paga, é claro– de um serviço de reparos e de um sistema antivírus. Falta de “simancol”.

Ele aguardou silenciosamente, pronunciou um “não” educado, agradeceu e desligou. Suspirou, saiu e foi cuidar dos seus cachorros. Esses, sim, capazes de entendê-lo.

Todo mundo sabe que esse tipo de atendimento é inadequado, mas por que o padrão é mantido?

Talvez porque as pessoas não pensem fora da caixa. Talvez porque muitas empresas ainda sejam negligentes no serviço ao cliente. Tempos atrás, a revista Operations & Fulfillment pesquisou 158 empresas e constatou que cerca de 25% delas não mediam formalmente o atendimento ao cliente.

Isso é grave. A situação é ainda pior, quando as companhias realizam pesquisas cujos resultados alimentam justamente a conduta inadequada de seus colaboradores.

Ora, o francês René Descartes lançou luz sobre a questão dos padrões de aferição da realidade há muito tempo. Em 1637, ele lançou o clássico “Discurso do Método”, um tratado matemático e filosófico para conduzir o pensamento humano. Esse saber ordenado foi fundamental para a constituição da ciência moderna. Está na base de estudos dos mais diversos campos do interesse humano, da sociologia à medicina, da física ao marketing.

O sábio Peter Drucker, aliás, tinha uma frase curtinha para expor sua preocupação com o tema: “Não existe gerenciamento sem medidas”. Segundo ele, métricas confiáveis são fundamentais à tomada de decisão nas mais distintas áreas da gestão.

Mas, afinal, o que acontece? Na verdade, muitas das pesquisas internas são elaboradas a partir de metodologias viciadas. O objetivo não é detectar o erro e buscar soluções, mas buscar uma justificativa para que as coisas sejam mantidas do jeito que estão.

Conforme o padrão adotado pela empresa de telefonia, o serviço da atendente pode ter sido considerado excelente. Afinal, meu amigo não chamou o supervisor, não xingou a interlocutora e nem pediu o cancelamento de sua assinatura. Se não há briga feia, muitos serviços de atendimento tendem a considerar que a missão foi cumprida a contento. A razão é bem simples: muitos estudos se concentram em verificar se o funcionário é eficiente, e não se o cliente está satisfeito.

Para ser confiável, uma pesquisa do gênero precisa ser conduzida por um agente externo ao setor, criterioso e independente. E mais: é necessário que ouça as pessoas e confira a efetividade do serviço.

Vale advertir que algumas pessoas simplesmente desistem de reclamar, porque não aguentam chateação. Outras, porque foram atendidas com simpatia, mesmo que seus problemas não tenham sido resolvidos. Esses são os “falsos satisfeitos” que contaminam os dados de pesquisas menos rigorosas.

Depois de tudo isso, também é preciso garantir que os dados obtidos sejam devidamente tabulados, comparados e interpretados. Muita pesquisa boa acaba gerando projetos sem pé nem cabeça, porque muitos executivos não estão preparados para decifrar o mistério de tabelas e gráficos.

Além disso, muitas empresas ainda não desenvolveram uma contabilidade inteligente, isto é, capaz de determinar o impacto do atendimento nos resultados financeiros.

Nessas corporações, não se conhece o tamanho do prejuízo em razão do atendimento ruim. E, pior, não se determina quanto a empresa poderia lucrar, se oferecesse um atendimento adequado. Do ponto de vista da estratégia competitiva, esse é um problema básico que muitas empresas não sabem ou não querem resolver, especialmente em setores monopolizados.

Se existe esse sério desvio, também é verdade que aí se esconde uma grande oportunidade de diferenciação de mercado. Vejamos alguns passos que podem ser adotados por um executivo bem disposto e de mente arejada:

- realizar pesquisas periódicas e refinar o método;
- focar a satisfação do cliente e não a eficiência burocrática do atendente;
- estabelecer uma ligação dinâmica entre a satisfação do cliente e o resultado gerado.

Por fim, é preciso pensar na diversidade e na singularização. Por vezes, diante da TV, eu me imponho um agradável exercício: penso em como minha empresa poderia atender, com educação e eficiência, os personagens que desfilam pela tela.

Como é que lidaríamos com os trotes do Bart Simpson? E com a avareza do Tio Patinhas? E com as obsessões do Peter, de “Uma Família da Pesada”? E o que dizer das suscetibilidades das moças de “Sex and the City”?

Quem faz essa reflexão logo percebe que não pode adotar uma cartilha padronizada para o atendimento. Como adotar sempre o mesmo procedimento, se as pessoas são cada vez mais diferentes?

 

Por Carlos Alberto Júlio (presidente da Tecnisa e membro dos conselhos da HSM e da Camil Alimentos. E-mail: julio@carlosjulio.com.br)


Leia também outros artigos deste colunista:

- Crise, negligência e concorrência

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HSM Online
06/07/2009

Espaço do leitor: 8 Comentários
Comentários:
Claudio K Freitas disse:
Setembro 1 de 2009 às 12:06 hs.
Prezado Carlos Júlio e colegas leitores, eu tenho tentado disseminar a cultura de atendimento já há muito tempo. Sou um profissional focado em Marketing de serviços e atendimento, tema no qual possuo grande experiência e uma palestra chamada "Atendimento 100", onde abordo os benefícios e o ROI diante da percepção positiva por parte dos cliente se na hora do contato, na ponta, este é bem atendido. Aqui no Sul, por exemplo, existem muitas empresas tradicionais, pessoas conservadora, o empirismo impera, passei por experiências desagradáveis onde me deparei com um problemas de EGO muito presente, a autocrítica simplesmente inexiste, então o caminho para estabelecimento de processos e suas conseqüentes mensurações é árduo.Sobre a questão monopolista, é um mal em nosso país ainda, onde setores hoje extremamente necessário, como telefonia e tv a cabo estão na mão de empresas com gestão fragilíssima, estes operam na "explosão da venda", no share a curto prazo, o negócio é lucro, ou melhor, faturamento, pois eles parecem desconhecer a diferença entre os dois, sendo que investem milhões em comunicação e estoques, mas na proporção de lucro ideal para todo este movimento, ficam longe da fluídez de caixa confortável. É bom ler textos como o seu Carlos, afinal serve como endosso ao que pregamos em nossa rotina profissional. Peço seu feedback em meu blog mercadologia100.blogspot.com . Prometo responder às solicitações da melhor forma para torná-lo assíduo. Abraço e parabéns.
Carlos Montemezzo disse:
Agosto 21 de 2009 às 15:28 hs.
"Até Descartes", não precisei ler o resto.
Henrique disse:
Agosto 20 de 2009 às 15:43 hs.
Sr. Carlos Tahin, caipiras metropolitanos? Eu sou do interior, me considero um caipira. Hoje moro em São Paulo e, com muitas saudades da minha terra querida, nunca esqueço minhas raizes. Nem por isso meu desempenho profissional é diferente dos demais. Pelo contrário até. Acho q sou muito mais esclarecido do que muitos profissionais que viveram apenas em grandes cidades. Existe uma mania besta do morador de São Paulo se achar melhor do que os outros. Então, antes de inserir o termo caipira em qualquer coisa, pense bem.Carlos Júlio fantástico, como sempre.
Soraia Plewka de Oliveira disse:
Agosto 16 de 2009 às 11:21 hs.
Há muito temos precebido que o atendimento é o "calcanhar de Aquiles" das empresas. Seja presencial ou virtual, o atendimento tem deixado à desejar. Achei incrível a idéia de desenvolver um estudo sobre o impacto do atendimento nos resultados financeiros. Um ditado diz que só nos educamos quando sentimos os resultados nas partes mais sensíveis do corpo...os bolsos! Assim demonstrado é possível que os resultados passem a ser avaliados por alguns itens adicionais.
Kelermane Martins disse:
Julho 25 de 2009 às 01:53 hs.
Parabéns pela visão crítica sobre o atendimento padronizado que tem sido disseminado em larga escala nas grandes empresas no Brasil! Foi muito acertado dizer que o foco central do desempenho do atendimento está na eficiência do atendente e não na satisfação do cliente. A baixa concorrência em alguns setores ou a falta de competidores competentes para dá respostas mais adequadas às necessidades dos clientes faz com que situações como a que foi relatada seja uma prática recorrente. É lamentável como muitas empresas têm tratado verdadeiramente seus clientes, especialmente as companhias de serviços de telefonia. Uma das formas mais potentes e de baixo custo para aperfeiçoar a qualidade dos serviços de uma empresa é ouvir o cliente, identificar o nível de satisfação e implementar as sugestões que promovam melhorias no ciclo do serviço. Essa é uma forma inteligente e promissora de reter os clientes atuais e captar novos, mas infelizmente muitas empresas gastar muito tempo e dinheiro desenhado novos produtos e novas formas de serviços e esquecem de perguntar a aqueles que vai utilizá-los, os clientes.
Carlos Tahin disse:
Julho 19 de 2009 às 17:24 hs.
Patinho Feio - Excelente materia, principalmente quando diz que - O objetivo nao eh detectar erros nem trazer solucoes, mas sim buscar justificativas - . = = = = = Me faz lembrar de uma das primeiras reunioes que tive com um novo cliente em que ele falava mal de seus proprios clientes como a origem de todos seus problemas, - sao muito chatos - dizia. = = = = = Ele me contou que certa vez montou um pos-venda, gastou um dinheirao com 0800, atendentes e telefonistas que ligavam para os consumidores para saber se estavam satisfeitos e so o que ouviam eram reclamacoes, e dai a empresa tinha que ir consertar, reinstalar, etc. - Foi o maior caos, um prejuizo danado - disse ele concluindo que - se ninguem perguntar nada pros clientes eles acabam esquecendo e tudo fica bem - . Depois de ouvir esta, percebi que meu trabalho ia ser bem maior do que eu tinha imaginado... = = = = = Grande parte dos presidentes e diretores acreditam que sua empresa esta entre as melhores e que Fatores ou Problemas pontuais pode ser facilmente resolvidos. = = = = = Na pratica, sabemos que os patinhos feios com o tempo ficam horriveis, mas a maioria dos gestores nao admite que se fale mal de seus filhotes. = = = = = O mais comum eh a Estrategia do Avestruz, e a do Argodao Naoreia: = = = = = Se nao tem reclamacao eh porque nao tem motivo, e entao ta tudo certo! E quem num gosta pode ir pra concorrencia, vai... vai ve si eh mioh... (visao tipica de - caipiras metropolitanos - ). = = = = = Obs. Retirei acentuacao e paragrafos para adaptar ao editor.
Carlos Tahin disse:
Julho 19 de 2009 às 17:14 hs.
Patinho Feio - Excelente materia, principalmente quando diz que “O objetivo nao eh detectar erros nem trazer solucoes, mas sim buscar justificativasâ€. - - - - Me faz lembrar de uma das primeiras reunioes que tive com um novo cliente em que ele falava mal de seus proprios clientes como a origem de todos seus problemas, “sao muito chatos†dizia. - - - - Ele me contou que certa vez montou um pos-venda, gastou um dinheirao com 0800, atendentes e telefonistas que ligavam para os consumidores para saber se estavam satisfeitos e so o que ouviam eram reclamacoes, e dai a empresa tinha que ir consertar, reinstalar, etc. “Foi o maior caos, um prejuizo danado†disse ele concluindo que “se ninguem perguntar nada pros clientes eles acabam esquecendo e tudo fica bemâ€. Depois de ouvir esta, percebi que meu trabalho ia ser bem maior do que eu tinha imaginado... - - - - Grande parte dos presidentes e diretores acreditam que sua empresa esta entre as melhores e que Fatores ou Problemas pontuais pode ser facilmente resolvidos. - - - - - Na pratica, sabemos que os patinhos feios com o tempo ficam horriveis, mas a maioria dos gestores nao admite que se fale mal de seus filhotes. - - - - O mais comum eh a Estrategia do Avestruz, e a do Argodao Naoreia: - - - - Se nao tem reclamacao eh porque nao tem motivo, e entao ta tudo certo! E quem num gosta pode ir pra concorrencia, vai... vai ve si eh mioh... (visao tipica de “caipiras metropolitanosâ€). = = = = Obs. Retirei acentuacao e paragrafos para adaptar ao editor.
Carlos Tahin disse:
Julho 19 de 2009 às 16:57 hs.
Patinho FeioExcelente matéria, principalmente quando diz que “O objetivo não é detectar erros nem trazer soluções, mas sim buscar justificativasâ€. Me faz lembrar de uma das primeiras reuniões que tive com um novo cliente em que ele falava mal de seus próprios clientes como a origem de todos seus problemas, “são muito chatos†dizia. Ele me contou que certa vez montou um pós-venda, gastou um dinheirão com 0800, atendentes e telefonistas que ligavam para os consumidores para saber se estavam satisfeitos e só o que ouviam eram reclamações, e daí a empresa tinha que ir consertar, reinstalar, etc. “Foi o maior caos, um prejuízo danado†disse ele concluindo que “se ninguém perguntar nada pros clientes eles acabam esquecendo e tudo fica bemâ€. Depois de ouvir esta, percebi que meu trabalho ia ser bem maior do que eu tinha imaginado... Grande parte dos presidentes e diretores acreditam que sua empresa está entre as melhores e que Fatores ou Problemas pontuais pode ser facilmente resolvidos. Na prática, sabemos que os patinhos feios com o tempo ficam horríveis, mas a maioria dos gestores não admite que se fale mal de seus filhotes. O mais comum é a Estratégia do Avestruz, e a do Argodão Naoreia:Se não tem reclamação é porque não tem motivo, e então tá tudo certo! E quem num gostá pode ir pra concorrência, vai... vai vê si é mió... (visão típica de “caipiras metropolitanosâ€) .
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