Marketing
Vem aí! O pior consumidor

Televisão, telefone fixo, aparelho de som, máquina fotográfica, filmadora... Tudo isso serão "dinossauros".

Para quem está acostumado com marketing e tendências, assim como disse Philip Kotler, na sua última passagem pelo Brasil, o sinal vermelho acendeu. Estamos no nível de atenção máxima no marketing. Porquê? É culpa da crise? Claro que tem a ver, mas a crise financeira é só mais uma faceta (obscura) do sistema complexo que a globalização causou. O sinal vermelho acendeu porque o que vem por aí é comportamental, profundo e impactante para o mercado do consumo.

Comportamental porque se refere à um padrão global de jeito de ser que está presente em todos os jovens abaixo dos 25 anos. Está ligada à forma displicente e pouco compromissada de viver, está ligada à pouca necessidade de aparato material o seu redor. Hoje (e daqui pra frente) um jovem não precisa mais do que um computador e um celular para curtir.

Televisão? Telefone fixo? Aparelho de som? Máquina fotográfica? Filmadora? Dinossauros. Estamos falando de linha marrom. Linha marrom? Até isso deve mudar de nome. E na cozinha? Microondas, geladeira e fogão, OK. Coifa? Depurador? Fora com as frituras! Máquina de lavar e secar, OK. Ferro de passar roupas? Abissal, pra quê passar roupas? E lá se vai metade da linha branca pra cucuia, como se dizia antigamente (1980). Carro? Quanto menor e mais clean melhor, de preferência elétrico, não poluente.

Pronto, chegamos no nível mais profundo. Tudo que polui ou exagera na extratividade do ambiente entrou na fase do desprezo deste consumidor, é a ecologia 2.0, a nova fase de comportamento em relação ao consumo consciente. Jornais, revistas e livros, cada um vale uma árvore. Imprimir ou fazer cópias em papel? Terrosismo com o planeta. Embalagens? Dá para racionalizar? Minimalismo neste setor, por favor. Dá trabalho encher e esvaziar os três lixos recicláveis (verde, azul e amarelo) todo dia. Quanto menos embalagem melhor.

Claro que o jovem menos informado tem um comportamento mais atrasado, mais destruidor, mas também ele tem menos dinheiro para detonar e tem o exemplo que vem do mais abastado, que acaba sendo copiado. Hoje já tem gente da favela pensando na silhueta, pensando em evitar a junkfood, abaixo dos 25, lembrando. E o consumidor do luxo, não se enquadra nisso? Tem dinheiro para consumir o quanto quiser. É verdade, mas repare que eles não querem o rótulo, eles não querem a bolha que os protege.

Foram gerações se isolando, se escondendo cada vez mais. Parece que houve aí um aprendizado, para melhor. Sair da bolha só depende de não ostentar - a liberdade é linda. Estes vão viajar mais, muito mais, vão experienciar mais, muito mais, mas na sua mochila não cabe muita coisa. Neste caso o crédito é a melhor companhia. Mesmo visitando os extremos - os ricos e os pobres - vemos mudanças de comportamentos, no centro, onde está a massa de consumo, ainda é mais óbvio.

É claro que sempre existirão jogadores de futebol e políticos que parecerão ETs, no seu contrasenso consumista, isso indica que as duas contracorrentes da tendência estão isoladas: ignorância e falta de ética. Impactante é a minha última palavra que aponta esta tendência, porque claramente isto derruba linhas de produção, gera excesso de estoques, cria saldos invendáveis. As indústrias têm que pensar em diminuir? Têm.

Ao mesmo tempo elas têm que pensar em inovar. O caminho para continuar é um só, este. Lá em 2006 eu escreví um artigo que circulou muito por aí. Chamava-se “Gestão da Inovação, o novo desafio do marketing”. Dele saiu meu livro: “Competitividade através da Gestão da Inovação" (Atlas 2008). E não é que o assunto está valendo mais ainda agora.

O mesmo Kotler apontou numa entrevista que um CEO tem que trabalhar 25 horas por dia para lidar com isso. Solução velha para um problema novo. Aliás, não pode nem ser chamada de solução, a menos que seja pronunciada por um dono de hospital, que pretende ficar rico com os CEOs enfartados.

Conhecer este consumidor, entendê-lo, vivê-lo. Aí está o começo do trabalho do gestor de inovação, que pode muito bem ser um profissional de marketing repaginado, mais moderno, menos dependente da comunicação tradicional  e mais planejador, estrategista. Também pode ser um engenheiro, ou um administrador, mas repito o que escreví em 2006: o desafio é para os marqueteiros, basta não se acomodar.

 

Fonte: Mundo do Marketing (www.mundodomarketing.com.br)
Por Edson Zogbi (especialista em gestão da inovação e planejamento de marketing, diretor geral da Poliscenário (
www.poliscenario.pt) em Lisboa, empresa proprietária das redes: RCLP – Rede Colaborativa da Língua Portuguesa (www.rclp.pt, www.rclp.com.br), RCLE – Red Colaborativa en la Lengua Española (www.rcle.es) e CNIE – Colaborative Net for Innovation in English (www.cnie.co.uk). Conferencista internacional, professor e autor de 3 livros (Editoras Atlas e Profitbooks) e de 29 DVDs didáticos (Commit e Dtcom).
HSM Online
09/10/2009

Espaço do leitor: 13 Comentários
Comentários:
MARISTELA ROCHA - GRUPO RR disse:
Janeiro 22 de 2010 às 13:41 hs.
As empresas devem estar preocupadas em oferecer aquilo que agrega valor ao estilo de vida do consumidor, entamos em uma era de marketing reverso, onde o consumidor dita como quer ser atendido.
Douglas disse:
Outubro 29 de 2009 às 19:40 hs.
Um texto excelente que traduz uma realidade de muitas empresas do setor de vendas e que parecem estar totalmente por fora do que está acontecendo ao seu redor. No setor de prestação de serviços - seguros, área em que eu trabalho há 15 anos, é impressionante a falta de visão e estratégias de atuação dos corretores de seguros para este novo perfil de consumidor. Comum é ouvir reclamações de preço.
Socorro disse:
Outubro 16 de 2009 às 08:57 hs.
O pior consumidor refere-se a um público para o qual as empresas terão maior dificuldade para vender ou atrair. Esse é o desafio real não só para os profissionais de marketing mas para os cidadãos, pois as substituições ou eliminações poderão provocar massas de desempregados, para os quais precisaremos gerar trabalho de modo a manter e aumentar a capacidade de compra/consumo em todos os aspectos.
Francisco Azevedo - Key Account/RJ - franciscoazevedo-@hotmail.com disse:
Outubro 14 de 2009 às 20:42 hs.
EXCELENTE MATÉRIA. RETRATA QUE DEVEMOS ESTAR ATENADOS AO DESENVOLVIMENTO E AS MUDANÇAS DOS CLIENTES. O NOVO CONSUMIDOR TRARÁ MUDANÇAS QUE SE BEM APROVEITADAS, SERÃO ÓTIMAS OPORTUNIDADES DE NEGÓCIOS.
Emerson Lima disse:
Outubro 13 de 2009 às 06:40 hs.
O mundo muda numa velocidade absurda, a menos de um seculo atrás, uma pessoa poderia passar a vida inteira e não perceber mudança alguma. Hoje não passamos um dia sequer sem perceber mudanças, digamos que é inevitável. Penso que a cada dia "pós crise" as pessoas passam a mudar para melhor e percebemos que o consumo passa a ser mais racional entre as classes com renda acima de 10 sálarios mínimos. Ouso dizer que isso é só o começo e que deve haver mudanças no modo de administrar as emnpresas e suas políticas. Vamos pensar nisso.
susananeumann@terra.com.br disse:
Outubro 12 de 2009 às 19:08 hs.
Parabéns, um texto que retrata muito bem os consumidores que deverão ter nosso foco de atenção. Assertividade, clareza, objetividade.
Beto Gonzalez disse:
Outubro 10 de 2009 às 08:14 hs.
Excelente texto! Já o compartilhei. Agora fiquei aqui pensando, tenho 35 anos, mas sempre fui influenciado por esses conceitos que moldaram essa faixa-etária cristalizando tais comportamentos, portanto consigo visualizar com clareza o cenário. Por outro lado, sou um e lido diariamente, com executivos de Marketing e de Vendas de diversas empresas, algumas de grande relevância, percebo esses conceitos, mas não percebo influência no dia-a-dia profissional, na atividade econômica. As metas sempre subiram! Como conciliar? Me parece que constatar o fenômeno foi a parte mais fácil, agora quero ver como nós, a frente e responsáveis por isso, devemos agir para acompanhar esse movimento?
João PAulo COelho disse:
Outubro 9 de 2009 às 16:45 hs.
MUITO BOM TEXTO. TRabalho no mkt de uma multinacional de telefonica.´TEnho 28 anos, já morei trabalhando em mais de 3 países e a cada experiÊncia vejo a necessidade de saber mais e mais rápido.Minhas saudações por este belissímo texto..quem vive...sabe a real assertividade do mesmo!PARABÈNS
Walter Cover disse:
Outubro 9 de 2009 às 16:28 hs.
A chave para o entendimento e utilização analitica e pratica dessas tendências é sempre o tamanho, a velocidade dos mesmos e as reações que surgem a elas. Naturais ou institucionais. É mesmo uma tendência? é modismo? está apenas na mente de uma vanguarda? Consumismo, valores à parte, ainda é viceral, deixe só a crise passar.
Alcino Carlos Ribeiro disse:
Outubro 9 de 2009 às 16:26 hs.
Esta é hora de criar novas categorias de produtos. Este comportamento frugal dos jovens é um sinal em que os profissionais de Marheting devem ficar atentos.
Cleomir disse:
Outubro 9 de 2009 às 15:06 hs.
O pior consumidor já existe a muito tempo, é aquele que exige pelo que não paga, ou pelo que não contratou, alega desconhecimento, que foi mal orientado, mas tem muito orientação para reclamar e reclama simplesmente pelo fato de achar que tem direito, mesmo sabendo que sua reclamação é injusta, mas muitos reclamam para desabafarem seus problemas, então temos que lidar com isso.
Homero disse:
Outubro 9 de 2009 às 14:44 hs.
Interessante e não podemos esquecer que no meio disso tudo o tal do ATENDIMENTO ao CLIENTE será cada vez mais algo importante, pois será cada vez mais dificil lidar com esse novo e mais exigente consumidor. Mas os diretores de marketing ainda dormem quando se fala nisso.
atendimento@itaici.srv.br disse:
Outubro 9 de 2009 às 14:13 hs.
Veja só
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