Gestão
Por que Shopper Marketing?
"O marketing atual deixou de ser eficiente. Novos produtos fracassam a um ritmo impressionante." Philip Kotler, 2005.

O mundo, necessitado de transformações essenciais, assiste a uma crescente dúvida: a eficiência do marketing tradicional. Nos Estados Unidos, somente em 2006, mais de 32 mil produtos foram lançados. Lá, um consumidor regular é atingido por 3 mil mensagens de marketing por dia. Como ninguém consegue absorver tanta informação, o cérebro humano cria barreiras de proteção, como um gerenciador de spams. O resultado disso é que a maioria das mensagens de marketing emitidas não é percebida pelos consumidores.

Reagindo à reação de proteção dos consumidores, as empresas estão estudando, pelo branding, como entrar em contato com seus consumidores, tocando fundo as suas emoções. Mesmo com as contínuas pesquisas e a ciência apoiando suas iniciativas de marketing, as empresas em geral não foram bem sucedidas: 68% dos consumidores norte-americanos declaram trocar suas marcas preferidas na hora das compras. Mais ainda, somente 5% deles se dizem fiéis a uma única marca.

Uma pesquisa realizada em 2007 pela Deloitte Consulting LLP para a GMA - Grocery Manufacturers Association - mostrou que, se o destino das verbas para o marketing tradicional e as promoções (tanto para o trade como para o consumidor) estão estáticas e com viés de queda, a verba destinada ao Shopper Marketing dobrou de 2004 a 2007. A pesquisa também faz uma estimativa de que essa verba crescerá ainda mais em 2010, em um ritmo maior do que o marketing na internet, e atingirá 8% do investimento global de comunicação dos Estados Unidos em 2010.

Mas afinal de contas, o que vem a ser Shopper Marketing? Por que inventar uma nova forma de marketing? Será mais um modismo nessa economia cheia de incertezas? Uma inovação semiótica, uma reinvenção da mesma coisa, criando novas embalagens cosméticas para o mesmo processo de comunicação?

Nenhuma das opções acima. Na verdade, alguns fatos vêm acontecendo desde o final do século passado. Paco Underhill, um geógrafo urbano, começou a fazer pesquisas em ambientes de varejo e ficou surpreso com suas descobertas. Dirigiu sua atenção à psicologia ambiental, um campo disciplinar que estuda a reação humana ao seu ambiente, e lançou um livro chamado Why We Buy: The Science of Shopping (Vamos às compras! A Ciência do Consumo, Ed. Campus/Elsevier) em 1999.

Foi um sucesso mundial de vendas. Ele lançou alguns pensamentos que ficaram para sempre na prática do varejo. Criou a idéia da "experiência de compra" e nos apresentou um novo consumidor ainda meio desconhecido, aquele que está dentro de uma loja e se transforma em um shopper (comprador). Ele descobriu que o consumidor imagina uma compra, entra em uma loja e se comporta de uma forma diferente da programada, então ele reuniu uma equipe de profissionais de ciências sociais, psicologia, antropologia, semiótica, marketing, comunicação e estatística para estudar como eles pensam e agem quando estão momentaneamente em um estado psicológico modificado.

Vários outros fatos vieram tornar o marketing de varejo mais complexo. De um lado, explodiram as ofertas de canais de televisão, jornais e revistas; de outro, 20% dos lares norte-americanos já possuíam sistemas como o TiVo, que permitem aos telespectadores evitar os anúncios de TV. A grande maioria das revistas norte-americanas sofreram quedas de circulação depois de 2000. Cresceu, e muito, o percentual das pessoas insatisfeitas com uma marca ou uma loja. Nos Estados Unidos, 73% dos consumidores compram uma mesma categoria de produto em 5 ou mais diferentes canais de venda. Somente 26% deles são leais a uma cadeia de lojas. Some-se a isso uma consciência crescente dos direitos do consumidor e uma percepção da indiferença das marcas pelos problemas dos consumidores.

Ciência neurológica - Vem crescendo a contribuição da ciência neurológica para a investigação de como nos comportamos. Em 2003, um professor de Harvard chamado Gerald Zaltman publicou um livro denominado How Customers Think. Em 2008, o especialista em Branding e pesquisador, Martin Lindstrom, editou seu quinto livro chamado Buy-ology, Truth and Lies About Why We Buy, no qual ele apresenta sua investigação de 3 anos em neuromarketing, em parceria com pesquisadores de Oxford, com cerca de 2 mil voluntários que tiveram suas mentes escaneadas durante uma sessão de estímulos de mensagens de marketing.

Essas iniciativas buscam conhecer melhor o consumidor, aquela pessoa que é o alvo do marketing tradicional, uma disciplina construída para se comunicar com pessoas que assistem a TV, lêem um anúncio impresso, abrem uma mala-direta, e estão normalmente sentadas. É claro que pessoas escutam rádio também em movimento, mas os shoppers estão sempre em movimento dentro das lojas e sujeitos a interações ainda não totalmente conhecidas, porém cada vez mais investigadas.

Mas o que fazer com toda essa informação? Nesse momento, as grandes empresas do planeta estão montando seus departamentos internos de Shopper Marketing e procurando por empresas estratégicas que consigam tornar todo esse conhecimento em uma comunicação eficaz diretamente com seus shoppers. Se o Branding constrói uma marca e o Consumer Marketing gera atração por essa marca, o Shopper Marketing deverá ativar a conversão da marca no PDV, na mídia final e decisiva, atuando de forma complementar a todas as atividades de marketing do cliente. Afinal, é no ponto de venda que a derradeira mensagem da marca atinge, por poucos segundos, o shopper presente, que está em movimento diante do produto ou serviço, mas com intenção de comprar para satisfazer suas necessidades.

Estamos diante de uma nova transformação da comunicação e do marketing.

Rique Nitzsche (Diretor de criação e gestor de projetos da AnimusO2)
HSM Online
27/01/2010

Espaço do leitor: 12 Comentários
Comentários:
Filipe Frota disse:
Fevereiro 7 de 2010 às 12:22 hs.
Ainda tem a técnica de eye tracking no ambiente de varejo.. São técnicas que ainda se tem que importar..
Filipe Frota disse:
Fevereiro 7 de 2010 às 12:19 hs.
Ótimo artigo Rique. Se entendi bem o Shoppers Marketing deve se apoiar em pesquisas inovadoras como o Neuromarketing e a etnografia.. tudo isso com o objetivo de vencer as barreiras da atenção seletiva, na busca de alternativas de empaque e comunicação visando o despertar de estímulos sensoriais, para captar a atençao do shopper, podendo criar vínculos emotivos com intuito de favorecer a percepção de valor de produtos. É isso? Abs Filipe Frota
Sérvulo Liberato de Medeiros disse:
Janeiro 29 de 2010 às 17:35 hs.
"68% dos consumidores norte-americanos declaram trocar suas marcas preferidas na hora das compras. Mais ainda, somente 5% deles se dizem fiéis a uma única marca."Diante da realidade acima, entendo que ou os produtos são de péssima qualidade ou os profissinais vendedores e outros envolvidos no processo de comercialização, não atendem nem tratam bem os clientes.Daí a "reinvenção" do simples.
paulo rubini disse:
Janeiro 28 de 2010 às 18:17 hs.
Um nome novo para tudo o que conhecemos sobre trademarketing.MKT360GRAUS.COM.BR
paulo rubini disse:
Janeiro 28 de 2010 às 18:17 hs.
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paulo rubini disse:
Janeiro 28 de 2010 às 18:16 hs.
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Katia Cecotosti, editora HSM Online disse:
Janeiro 28 de 2010 às 11:27 hs.
Novos consumidores sempre irão surgir, com novos comportamentos e hábitos de consumo. O que as empresas não podem perder de vista é o real desejo deste cliente. Sem essa informação, o cliente entra, não acha o que quer e vai embora (diretor para o concorrente). Concordo com a Célia, é preciso ser único para um cliente único. O pulo do gato pode estar nesta simples ação.
Célia Castro disse:
Janeiro 28 de 2010 às 07:19 hs.
"A insustentável leveza do ser"Destaca-se a crescente convergência de disciplinas complementares para entender o comportamento, as expectativas, as experiências e as sensações dos consumidores, sobretudo nos pontos de venda.O desafio reside na complexidade de se gerenciar essa grande quantidade de informações, analisá-las e chegar a uma conclusão válida para os objetivos estratégicos e mercadológicos da empresa - desafio potencializado pelo fato de essas informações não serem perenes, dada a grande variedade de opções à disposição dos consumidores e ao próprio caráter multifacetado, multimidiático e volátil das pessoas nesta era ultar-hiper-pós-moderna.Às vezes, penso que uma contratendência não tarda a vir: a volta da simplicidade, da redução de opções, do "fazer o básico", que muitas empresas negligenciam em busca de uma diferenciação nem sempre desejada pelo cliente. A impressão que muitas vezes eu tenho é de que as empresas, confusas por não conhecer adequadamente seus públicos, querem ser tudo para todos e acabam por não ser nada para ninguém.Essa "esquizofrenia mercadológica", fruto de inúmeras tentativas de aprofundar o relacionamento com o cliente, acaba por jogar as empresas para o campo da transação, das relações superficiais, da fatia de mercado em detrimento da fatia do bolso do cliente, o que, mal comparando, se aproxima muito do comportamento pessoal de "ficar", "pegar" ou qualquer outro termo que se invente, em lugar de "namorar" e "casar". No fim, sobra um vazio, uma lacuna que não combina com a exigência de sustentabilidade - de construir algo perene, consistente, realmente diferenciador.
marcelo tavora disse:
Janeiro 28 de 2010 às 06:15 hs.
Artigo muito bem elaborado. Parabens,, fica agora um "gap " para as analises de consumo via web, quando os comportamentos a meu ver, estão direcionados à confiabilidade do forcecedor, da entrega , das condições de pagamento e fundamentalmente no preço.. quanto cabe por mê no meu bolso...
Andréa Carla Marques disse:
Janeiro 27 de 2010 às 18:16 hs.
Isso mesmo! Há anos que o varejo brasileiro desenvolve ações (algumas inéditas, inclusive) que visam ao aumento de vendas no PDV. Acho interessante é que somente quando os americanos batizam "suas" inovações é que os executivos/gestores daqui aceitam colocá-las em prática. Vamos valorizar a nossa criatividade!
Daniel bravo disse:
Janeiro 27 de 2010 às 12:48 hs.
Sem a mesma sofisticação os teóricos brasileiros já trabalham com o conceito de dissociação cognitiva há algum tempo. Falta colocar essas informações ao alcance das pequenas empresas... Seria ótimo.
carlos moreira disse:
Janeiro 27 de 2010 às 11:41 hs.
No texto do Rique não foi levado em questão o e-mkt, o preço e o atendimento no PDV.O comprardor é mais fiel ao seu bolso hoje, dvd a qualidade do produto estar parelha. Neste caso, o atendimento é fator de venda e não há nada mais antigo que isto.absMoreira
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